O termo retórica tem recebido através
dos séculos definições estereotipadas pejorativas,
caracterizando-se por ser meramente um amontoado de palavras
brilhantes na forma, porém destituído de conteúdo. Convence, comove
, agrada transmitindo mensagens que estariam distante de qualquer
realidade . Esse trabalho analisa essa forma de estereótipo e suas
conseqüências para o entendimento do papel da comunicação dentro
das organizações. Propõe e desenvolve um novo enfoque dentro da
perspectiva metodológica da Rhetorical Criticism: a pluralidade de
referencial teórico para interpretação do ato retórico, nos quais
estarão presentes perspectivas de análises voltadas criticamente
para análise das mensagens das organizações, utilizando, para esse
estudo de caso a disputa mercadológica das Organizações Globo x
Igreja Universal do Reino de Deus (I.U.R.D.) pelo controle do imaginário
popular. Entre os dias 22 de dezembro/1995 e 08 de janeiro/ l996, um
dos temas que recebeu grande destaque nas conversas de rua, na mídia
impressa e eletrônica foram as denúncias apresentadas contra a
igreja Universal do Reino de Deus (I.U.R.D) pelo ex-pastor da igreja,
Carlos Magno, através de uma fita de vídeo, veiculadas inicialmente
pelo JORNAL NACIONAL e JORNAL DA NOITE da Rede Globo de Televisão e
pelas revistas VEJA e ISTO É da Editora Abril. Em conseqüência
dessas denúncias contra os líderes da I.U.R.D., uma avalanche de
outras acusações se sucederam: ex-pastores e mesmo membros da
igreja, vieram a público revelar práticas enganosas da exploração
da boa fé, extorsões, sonegação de impostos e até envolvimento
com o narcotráfico internacional. Denúncias e mais denúncias se
sucederam, cogitou-se na cassação da autorização de funcionamento
da Rede Record de Televisão por parte do Ministério Público, uma
vez que seus proprietários, diante dos fatos que vieram a público, não
poderiam ser mais considerados pessoas idôneas.A imagem da I.U.R.D.
em relação aos seus fiéis e à opinião pública, de um modo geral,
ficou profundamente abalada. Enquanto as denúncias se sucediam, a
I.U.R.D. inicia a partir do dia 27 de dezembro (cinco dias após a
primeira denúncia), a sua contra ofensiva retórica através de uma
"campanha de esclarecimento " veiculada pelo Programa 25ªHora
através da TV Record,
estrategicamente planejada e sustentadas em três procedimentos básicos:
no primeiro momento, os líderes da I.U.R.D desmentem os fatos
divulgados pelo Jornal Nacional; no segundo momento põem em dúvida a
seriedade e idoneidade da Rede Globo de Televisão acompanhado do
"Manifesto dos Pastores" dirigido às autoridades e à
população brasileira de maneira geral, documento esse que foi
assinado não apenas pelos líderes da I.U.R.D, mas também por inúmeras
outras denominações evangélicas. Finalmente, promovem passeatas públicas
em cinco Estados do Brasil. Desse modo, com a realização de uma
"campanha de esclarecimento", veiculadas através do
programa 25ª hora, veiculados nos dia 27,28 de dezembro, 02,03,
04,05,06 e 08 de janeiro, acompanhada do "Manifesto dos
Pastores" e da "Passeata pela Paz", os líderes da
I.U.R.D. conseguiram mudar inteiramente uma situação constrangedora
, perante a opinião pública, revertendo a condição inicial de réus
para situação de vítimas. Esse fato que mereceu grande destaque nos
meios de comunicação dos principais países do mundo, estranhamente
ficou reduzido apenas à mais uma fato jornalístico. Entendemos ser
esse episódio bastante representativo e instrutivo para o universo da
comunicação no sentido de elucidar a fragilidade do estereótipo da
atividade retórica como discurso vazio, fornecendo excelente material
para a análise retórica do poder, revelando a influência da palavra
para acusar e defender, criticar e enaltecer, explicar e confundir,
propor e justificar realidades conhecidas ou pretendidas em defesa dos
interesses das organizações, questionando seu sentido ético e moral
pela utilização de montagens e técnicas subliminares uma vez que,
em nossos dias, a aplicação da análise retórica como instrumento
sutil de persuasão, parece ter se tornado uma tendência natural em
virtude de haver cada vez mais pessoas jurídicas exercendo o papel de
retores.
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