Esse
trabalho foi apresentado por mim ROBERTO BAZANINI, em Setembro/2000, no
XXIII Congresso da INTERCOM, no GT Humor e Quadrinhos, realizado em Manaus, sob a coordenação do
pesquisador Professor Doutor Flávio Mário de Alcântara Calazans.
Site:
www.calazans.ppg.br
Dilbert : O utilitarista
às avessas
O escravo com ares de senhor
Resumo
O sistema
capitalista sempre primou por apregoar a liberdade humana em todos os sentidos.
Entretanto, trabalhar utilitariariamente não dignifica o ser humano como muito de nós, até décadas
atrás, piamente acreditávamos. O
trabalho embrutece, insensibiliza e uma das maiores algemas que podemos colocar
em nós mesmos é a rotina estressante do dia-a-dia das empresas e nesse
particular somos o próprio Dilbert. Palavras-chave
utilitarismo -
mediocridade - empresa.
Roberto
Bazanini
Publicitário e
Doutor em
Comunicação e Semiótica pela PUC-São Paulo.
Dilbert é o protótipo do pretendente a executivo carreirista e bem sucedido tão presente no cotidiano das empresas modernas. Vive em um ambiente tenso no qual impera "a puxação de tapete” e a "maldade programada".
As relações entre os funcionários dentro das empresas são o objeto de estudo das tiras de Dilbert.
.
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Chefe
x chefe Chefe
e subordinado Chefe
e secretária Chefe
e consultor |
E tantas outras relações derivadas destas.
O chefe e a secretária

A criativade de Scott
Adams
Dilbert, a grande criação de
um humorista não profissional, atualmente é publicado em 17 idiomas e 39
países, 1550 jornais atingindo cerca de cento e cinqüenta milhões de leitores.
Scott Adams, seu criador,
pode ser considerado o protótipo de Bill Gates às avessas. Ocupou por vários
anos cargos de executivo médio na Pacific Bell, empresa de telecomunicações,
tendo durante nove anos vivenciando todos os modismos dos chamados modernos
processos de gestão empresarial, continuamente postos em prática em nome da
eficácia administrativa, elemento imprescindível na batalha pela
competitividade cada vez mais acirrada no universo da gestão empresarial e na
qual somente algumas empresas sobrevivem.
Tornou-se humorista nessas
"horas ocupadas", isto é, durante as intermináveis reuniões que não
acabavam mais, horas propícias e indispensáveis para criar outras inutilidades
do mesmo tamanho daqueles que estavam sendo faladas, como forma de manter a
saúde mental.
Dessa incômoda situação
extraiu duas importantes lições:
1. O que é trágico,
por outro lado, pode ser cômico pelo outro.
2. Pode-se ganhar dinheiro
com os absurdos da empresas (desde é claro que o postulante saiba desenhar),
principalmente, como já foi dito,
durante aquelas horas reuniões chatas e intermináveis, na qual fazer charges
é uma maravilhosa terapia de auto-esquecimento.
O personagem Dilbert, foi
criado durante essas reuniões e viria rapidamente se tornar o símbolo do
sujeito adaptado à realidade do mercado em constante agitação e delírio, a face
sombria do "progresso humano" em plena era da globalização, na qual,
uma grande legião de pobres "carregadores de piano" , trabalha até 16
horas por dia, considerando-se, entretanto, não escravo, mas sim ,o indivíduo
moderno adaptado aos nossos tempos.
Adams teve a feliz idéia de publicar seu
endereço eletrônico para os leitores relatarem suas experiências em situações
absurdas sempre presentes no cotidiano das organizações, fato esse que gerou
informações riquíssimas sobre a imbecilidade humana.
Desses relatos, Dilbert
retira material suficiente para publicações de suas tiras.
Qual
a razão de tanto sucesso de um personagem esquisito sem boca e de gravata torta que continuamente vive engolindo sapos
de chefes incompetentes ?
Desde
nossa mais tenra infância, fomos educados pela cultura cristã em que vivemos a
nos comportarmos com franqueza e sinceridade em nossas atitudes, procurando
sempre atingir o ideal do bom cidadão.
Quando
nos tornamos adultos e entramos no mercado de trabalho, começamos a perceber a
ingenuidade de nosso idealismo, pois o que impera em nosso capitalismo selvagem
é a luta desenfreada pelo sucesso a qualquer preço. Percebemos que o mundo dos
adultos está muito mais para Nicolau
Maquiavel do que para Jesus Cristo. Então, conscientes da luta entre o que (a realidade das transações e
dos motivos ocultos que se escondem atrás dessa) é e o que deveria ser (o ideal
de solidariedade e do amor incondicional), muitos caíram em Marx (um modo
materialismo e portanto, concreto, de recuperarmos os valores do espírito,
evidentemente não de forma cristã).
Entretanto,
a partir dos anos 90, com a queda do muro de Berlim e o fim da utopia comunista
e a implantação do processo de globalização (que para Galbrait simplesmente não
existe, e que globalização foi apenas um novo termo inventado pelos
norte-americanos como tantos outros para justificar o colonialismo e a continuidade da própria invasão na soberania das nações do mundo), tanto os
idealistas quanto os realistas tiveram que se adequar à essa nova realidade da economia mundial e seus
reflexos repercutem no comportamento humano.
Somos
todos burgueses, diriam os mais desesperançados e nessa perspectiva
Dilbert
é nosso herói.
-
Quem é Dilbert ?
- Dilbert representa o estereótipo do empregado adaptado as exigências do sistema, incapaz de qualquer atitude no sentido de alterar as coisas à sua volta, conformado em ser mais uma peça de engrenagem emperrada. É melhor ser uma peça encaixada do que um peça fora do sistema.
Por
isso : é funcional, não questiona, é adaptado, agitado, insensível.
Confinado
e espremido dentro de um minúsculo e cinzento cubículo, dentro do qual se
refugia e pouco lhe resta fazer além de torcer para que seu chefe não o
infernize e seu nome não venha a constar na próxima lista de demissões da empresa.
Características Físicas do personagem

1) Cérebro
desenvolvido para criar inutilidades.
2) Óculos de lente
grossa para esconder todo e qualquer sentimento.
3) Camisa branca
para aparentar simplicidade e adaptação. É o comum dos mais comuns.
4) Barriga
proeminente pela vida sedentária do burguês adaptado.
5) Gravata listrada
e curvada para cima para aparentar rapidez e preocupação do empregado
eficiente.
6) Duas canetas no
bolso, uma preta e outra vermelha para anotar e fazer observações.
7) Calças
pula-brejo, pronto para tudo, indicativo daquele que “veste a camisa da
empresa”.
8) Meias brancas ,
propícias para todas as ocasiões.
Em
síntese, Dilbert é o ser humano de caráter mercantil por excelência. Não sente,
não pensa, não tem opinião. O perfeito
escravo-executivo dos anos 90 e 00, 01...
Berrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
Oi ele aí !

O chefe
Parodiando
Raul Seixas: Oi, oi o chefe. Ele vem imponentemente, oi ó chefe.
O chefe em toda ou qualquer
situação é sempre aquele que incomoda. Aquele que perturba nossa paz. Diria o
pensador: “ Quem nunca teve vontade de matar seu chefe, atire a primeira
pedra”. Se para Jean Paul Sarte, o inferno é o outro, no mundo Dilbertiniano, o
inferno é sempre o chefe ou os consultores externos.
Por isso, o chefe tem tufos
nos cabelos remetendo iconicamente aos chifres de Satanás. Na obra de Scott
Adams, quanto mais demoníaco for o chefe, maior serão os seus chifres.
E nesse ambiente de
conflito, a relação chefe/subordinado são estabelecidas através de máximas filosóficas denominadas
por Scott Adams como “ O Princípio Dilbert”.
O "Princípio
Dilbert" representa os procedimentos normais para as empresas que os negam
em nome da racionalidade administrativa entretanto, todo bom senso e práticas
consideradas politicamente corretas, são responsáveis pelos:
3Gerentes
incompetentes
3Programas de
falência total
e outras calamidades
administrativas vistas por quem passou anos engravatado, espremido numa baia,
ou seja, Scott Adams, o criador de Dilbert.
O tombo

Alguns desses
aforismos são conhecidíssimos nas empresas.
Eis alguns
exemplos
3" Os funcionários mais incompetentes são
sistematicamente removidos para o lugar onde possam causar menos danos: a
gerência"
3"Meus
consultores são tão inteligentes que seus cérebros não cabem nas cabeças" (Dagoberto- o
cachorro-consultor).
3"Quase
sempre você é menos importante do que a
mobília. Você pode ser
dispensado, mas a mobília fica vantajosamente empregada na empresa que não
precisa mais de você".
Segue
abaixo algumas afirmativas podemos comprovar o utilitarismo às avessas de
Dilbert.
1. " Os
funcionários mais incompetentes são sistematicamente removidos para
o lugar onde possam causar menos danos: a
gerência “. Dilbert não compreende que seu estilo de trabalho faz dele um
sério candidato ao não crescimento, uma vez que sempre em estado de tensão não
tem tanta disponibilidade para mostrar maior incompetência, comportamento esse,
que de um modo ou de outro, fecha o caminho para sua promoção.
2. "Meus consultores são
tão inteligentes que seus cérebros não cabem nas cabeças. Vaidade, orgulho, arrogância como qualidades essenciais para se tornar
consultor e chefe de uma empresa e também nesse particular Dilbert é por demais
crédulo na aplicação do bom-senso.
3."Quase sempre você é menos importante do que
a mobília. Você pode ser dispensado, mas a mobília fica vantajosamente
empregada na empresa que não precisa mais de você". Menos importante
que a mobília, no entanto, sentindo-se importante por estar rodando junto com a
engrenagem do sistema, Dilbert não se dá por conta de sua própria
insignificância.
< Agora cá entre nós:
-
Você, após anos de dedicação
e esforço, nunca foi substituído
inesperadamente pelo amigo do teu chefe que tinha uma amante burra, mas
era muito gostosa e precisava trabalhar para não sobrecarregar tanto
financeiramente o pobre do amante que estava gastando muito, porém estava viciado naquele benhê, inclusive como
elemento de auto-afirmação humana. Você foi demitido, porém, eles estão
felizes.
Console-se com a música do Caubi: “consolação para um, felicidade pra
dois”.
-
Você, após anos de dedicacão
e esforço, nunca teve a infeliz notícia que estava demitido pela necessidade de
cortes nas despesas, vendo ao mesmo tempo a admissão de funcionários
inexperientes com salários bem maiores que o seu ?
Console-se com a música da Ângela Maria: “mas hoje tua sorte, falhou
não vai chegar”.
-
Você nunca presenciou cenas
na qual o seu amigo, resolve pedir demissão de um emprego para manter sua
hombridade e quando você chega na sala do chefe, eles estão rindo sadicamente
como aqueles ratinhos de desenho animado?
Console-se
com o sambinha: ‘O que dá pra rir dá pra chorar, o que dá pra rir dá pra
chorar”.
*
Obs:Caso você seja religioso e não goste das coisas profanas do mundo, uma outra opção será assistir e
participar do Programa “Fala que eu te escuto” da Rede Record de
Televisão.
> Passando do outro lado
-
E, você como chefinho, Você sabe que não é
bem isso, mas se os outros acreditam e temem. Fazer o que ? Ferrar quem não é
da panela pra mostrar que é o chefe . Afinal, você chegou lá. Já puseram muito
na sua agora é tua vez.
Regozije-se com a música Apesar de Você do Chico
Buarque, : “Hoje você é quem manda, falou ta falado, não tem discussão”.
Assim
é o Dilbert brasileiro. Seria divertido analisá-lo, consultando a lei de Gérson
ou assistindo o Programa do Ratinho ; para os mais intelectualizados,
reescrevendo a Crítica da Razão Pura de Emmanuel Kant, alterando um pouco o título para Crítica da Razão
Tupiniquim.
Portanto, no ambiente Dilbertiano, as pessoas são malucas, não importando o cargo que exerçam. Contudo, Dilbert é o mais maluco, pois obrigado a trabalhar como burro de carga na expectativa de ser um executivo de sucesso e obter riqueza, tornou-se especialmente maluco, não passando de um utilitarista às avessas.
E, como Dilbert
brasileiro............................................................................
Você Decide !
* Antes de tudo eu
recomendaria dois clássicos
-
A Teoria do Medalhão de Machado de Assis
-
Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdam.
Depois esses:
ADAMS,
Scott. O Princípio Dilbert.
Rio de Janeiro, Ediouro, 1997.
JAPIASSU,
Hilton. A crise da razão e do saber
objetivo. As ondas do
Irracional. São Paulo, Letras e Letras, 1996.
MENDES,
Maria Luisa. Ele e nós. Por que
Dilbert se parece tanto conosco? São Paulo, Editora Abril, Revista Exame n.
634, 23/04/97, p. 116.
MORGAN,
Garet . Imagens da Organização.
São Paulo, Atlas, 1996.
Divirta-se com a tragédia/comédia
Fique
com um grande abraço
Bazanini
– janeiro/2001.